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egundo
se presume, teria sido nos princípios do século XVII, ou mais exactamente
com o começo do domínio Filipino em Portugal, que entre nós se começou a
generalizar o uso do gelo para a fabricação de sorvetes e obtenção de
bebidas geladas.
ace às limitações
tecnológicas dessa época, apenas o gelo obtido da Natureza poderia ser
utilizado para aqueles fins.
ssim, não é de surpreender
que no século seguinte nos surja como importante cargo da corte o de " Neveiro de Sua Majestade" criado por D. Pedro II que, como facilmente se
depreenderá, tinha como função garantir que nos meses de Verão, na Mesa Real
não faltasse o tão apetecido gelo para elaboração de sorvetes gelados, ou
mesmo para gelar vinhos e bebidas que os costumes da época exigiam.
om a benignidade e tempero
do nosso clima, não era tarefa fácil, nas épocas quentes do ano, os meses de
Julho e Agosto, obter neve ou gelo naturais, mesmo recorrendo às serranias
mais elevadas e frias do nosso país - talvez apenas na Serra da Estrela.
Porém , a distância da grande serra a Lisboa e o contínuo aumento do consumo
de gelo que entretanto se começava a alargar para um número de consumidores
cada vez maior, levou a que o mesmo fosse procurado noutros locais mais
próximos.
ssim, em meados do Séc.
XVIII, as Serras de Coentral (Castanheiro de Pêra) e de Montejunto, passaram
a ser lugares privilegiados para a recolha, fabricação e conservação de
gelo.
estígios dessa actividade
ainda hoje se podem ver na
Serra de Montejunto,
numa zona conhecida por
Quinta da Serra.
Real Fábrica do Gelo,
situada na vertente norte da Serra de Montejunto, constitui pela sua
originalidade arquitectónica e pela sua apurada técnica de engenharia
empregue na sua construção, uma autêntica preciosidade do património
arqueológico industrial que vale a pena conhecer.
recanto no qual se situa a
Real Fábrica do Selo, sombrio e húmido, fustigado pela presença contínua de
um vento cortante e desagradável que se levanta do Atlântico, assevera ao
visitante que não foi um mero acaso a escolha daquele local para a
edificação de uma estrutura destinada à obtenção de gelo. A Serra de
Montejunto oferecia as condições climatéricas necessárias para a produção de
gelo natural, ao mesmo tempo que apresentava a vantagem de se localizar
relativamente próxima da capital.
Real Fábrica do
Gelo terá
sido construída por volta do ano de 1741 a mando de João Rose e Pedro Francalanza, na altura concessionários do abastecimento e comercialização do
gelo em Lisboa. De acordo com Francisco Câncio, a sua edificação teria
demorado seis anos, custando a elevada quantia de 45000 cruzados, e nela
chegaram a trabalhar em determinadas ocasiões cerca de cem operários.
o meado do Séc. XVIII a
exploração de gelo em Montejunto estava a cargo de D. Catarina Ricard, que
se ocupava do seu fornecimento à capital. A favor da concessionária emitiu
D. José um alvará, datado de 18 de Setembro de 1750, concedendo-lhe
especiais privilégios relativamente ao transporte do gelo desde o local onde
era obtido até chegar ao seu destino. O Rei ordenava às autoridades das
comarcas das terras por onde transitasse este produto que prestassem toda a
ajuda e favor necessários ao seu rápido transporte, justificando a decisão
tomada pela necessidade de "poder dar satisfação a este negócio tanto do bem
comum de todos", trato este que implicava elevados custos de deslocação "em
bestas, barcos e trabalhadores".
m 03 de Novembro de 1759, o
monarca fazia a concessão de idênticos privilégios a Julião Pereira,
atendendo deste modo às queixas que lhe foram dirigidas pêlos adjudicatários
do abastecimento de gelo a Lisboa respeitantes aos elevados custos e
dificuldades inerentes ao transporte de um bem tão vulnerável. Era
preocupação régia que o transporte do gelo se realizasse o mais rapidamente
possível para que o produto atingisse a capital em boas condições de
consumo. Cremos tratar-se deste Julião Pereira o indivíduo cujo nome consta
na inscrição da lápide, datada de 1782, que até há bem pouco tempo encimava
o portal setecentista que dá acesso ao átrio onde se situam os poços de
conservação das camadas de gelo. O teor da inscrição contida na lápide (a
ser recuperada) é o seguinte:
"ESTA FABRICA CO SUAS PERTESAS CÕPROU
E RE
EDIFICOU JULIÃO PR° DE CASTRO CAPITÃO
DE
MALTA REPOSTEIRO E NEVEIRO DA C(AS)A
REAL
NO ULTIMO DE JANEIRO DE 1782
produção de gelo na Serra
de Montejunto deve ter cessado no final do século XIX(1885?), facto que
embora sem confirmação documental coincide com o testemunho da tradição oral
recolhida entre os mais idosos habitantes de Pragança. Esta aldeia, situada
na vertente noroeste da Serra de Montejunto foi, provavelmente, a principal
fornecedora de mão-de-obra à Real Fábrica do Selo.
Real Fábrica do
Gelo é
constituída por um poço, actualmente coberto, e que outrora abastecida de
água um total de quarenta e quatro tanques (ou tabuleiros) amplos e rasos
destinados à sua congelação. As finas camadas de gelo formadas nestes
tanques calcários eram posteriormente transferidas para três poços
profundos, um deles bastante grande, localizados um pouco mais acima, onde,
envoltas em palha se conservavam até que chegasse o momento do seu envio
para Lisboa.
egundo António Morais, de Pragança, andavam habitualmente três homens no fundo do poço maior a calcar
com maços as camadas de gelo que eram ali colocadas por meio de uma roldana,
cujo gancho ainda se pode observar na abóbada dos poços.
ostumava-se dizer por graça que "quando o poço grande estivesse cheio de
gelo, um dos mais pequenos estaria cheio de dinheiro." Estas histórias ouviu
o Sr. António Morais serem contadas pelo pai, que trabalhava na Fábrica de sol-a-sol, uma vez que no seu tempo de meninice já não se produzia este bem
em Montejunto.
localização e a estrutura
arquitectónica deste complexo de produção de gelo natural, único no género
em Portugal e no Mundo, traduz o domínio de uma apurada técnica de
engenharia, tanto na escolha do local onde foi implantado, como nos
mecanismos concebidos para produzir e conservar o gelo.
ote-se igualmente, que a sua obtenção
através deste processo constituía um notável melhoramento na qualidade e
higiene alimentares. Não se tratava de neve natural, amontoada pelo próprio
vento num recanto em mato e esterco de modo a ser conservada, como acontecia
na Serra da Estrela, mas sim de gelo obtido por congelação natural em
tanques calcários construídos para o efeito e depois preservado em poços
adequados e caiados.
róximo da Real Fábrica do Selo
encontram-se ainda as ruínas de um antigo forno de cal, construção que
estaria muito provavelmente relacionada com a actividade da fábrica. Além do
efeito refrescante que a cal proporciona, esta seria também utilizada como
desinfectante dos poços.
transporte dos blocos de gelo,
desde a altura serrana, onde eram produzidos, até ao Porto de Lisboa,
constituía um processo moroso e complicado pêlos deficientes meios de
transporte existente na época.
pós serem retirados dos poços de
conservação, eram cuidadosamente envolvidos em palha e serapilheira, de modo
a ficarem protegidos da incidência dos calores do estio. A primeira fase do
trajecto, até à base da Serra de Montejunto, era feita no dorso de animais,
geralmente da espécie asinina. Aqui chegados, prosseguiam viagem no interior
de carros de bois que os transportavam até á Vala do Carregado onde
encetavam a última etapa do percurso, Tejo abaixo, a bordo de barcos à vela
(barcos da neve). Em Lisboa, podiam finalmente cumprir o seu destino
perecendo na fausta mesa real ou ao balcão de um modesto café alfacinha.
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